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Colégio Normal de São Paulo

Estava analisando alguns livros para entrada no acervo quando me deparo com um exemplar da obra “História da minha vida” do educador Fernando de Azevedo, o escrevinhador dos decretos-lei que criaram a Universidade de S. Paulo e também o Departamento Municipal de Cultura, este último que viria a ser dirigido pelo poeta (gosto mais dele como poeta do que outras coisas) Mário de Andrade.

No tal livro há um capítulo em que o autor fala de suas perambulações pelas livrarias e bibliotecas existentes na cidade de São Paulo no início do século XX, e claro, que fui ver qual era a visão dele dessas instituições.

O resultado era o esperado e qualquer semelhança com os dias atuais é mera coincidência!

Primeiro, a descrição de um “bibliotecário” em uma das principais biblioteca da época:
Se andava pelas livrarias da cidade sempre que me permitiam minhas ocupações profissionais e meus estudos, não percorria menos as bibliotecas ao meu alcance. A começar pela excelente biblioteca da Escola Normal, da Praça da República, de que era professor, a princípio da cadeira de latim e literatura latina e, depois de Sociologia. O bibliotecário Leopoldo de Freitas eu sempre encontrava escrevendo seus artigos para o Diário Popular, de que era colaborador, e não gostava de ser interrompido. Quando entrava, para consulta de livros, e a êle me dirigia, respondia-me sempre: “À vontade, professor. Pode consultar e ver os livros que quiser.”. Nem olhava quando saía depois de minhas leituras, entregue como estava a suas atividades jornalísticas. Sentia-se logo que não gostava de ser interrompido por êsses consulentes importunos. Êle não dava mesmo para bibliotecário”.

Com um profissional deste quilate e fazendo o que fazia o resultado abaixo era esperado:
Não sei o que foi feito dessa biblioteca, uma das melhores do Estado, e constantemente desfalcada pela falta de fiscalização na consulta de livros. Era essa biblioteca que mal conservava seus acervos e não dispunha de verbas para se renovar e enriquecer-se. Como não estava devidamente classificada e catalogada (nunca me caiu em mãos um catálogo dessa biblioteca), era natural que se fôsse aos poucos empobrecendo, no seu patrimônio antigo, com a perda e o desaparecimento de livros, de edições antigas e, por isso mesmo, preciosas, que nunca se sabia onde foram parar”.

Mas esse sujeito não permaneceu lá por muito tempo, pois logo em seguida veio a salvação:
Mais tarde, quando voltei à biblioteca da Escola Normal, já então Instituto de Educação, quem me atendia era Zélia, filha de Djalma Forjaz, colega e amigo meu, e sempre pronta a atender-me nas minhas buscas e consultas”.
Ufa! Parabéns, princesa “bibliotecária”!

Estou quase terminando!

Biblioteca Municipal de São Paulo em 1925
Biblioteca Municipal de São Paulo em 1925

Como esperava, consegui uma declaração de como era o atendimento da Biblioteca Municipal de São Paulo antes da gestão do Mário de Andrade:
Já na Biblioteca do Estado havia uma rotina burocrática a que se mantinha superior, quase alheio, seu diretor Eurico de Góes, baiano, bacharel em Direito, conversador, exuberante e um pouco retórico, mas muito cordial”.
Aqui o Fernando de Azevedo incorreu em um erro. O Eurico de Góes era diretor da então Biblioteca Municipal, que só anos depois veio incorporar a Biblioteca do Estado, mas isso segundo informações disponíveis, mas nunca se sabe, é preciso uma pesquisa mais profunda para ter mais certeza.

Enfim, parece-me que desde há muito tempo, a presença de gente alheia à instituição e também a burocracia excessiva permeiam a instituição biblioteca e ao mesmo tempo sempre se apresenta o bom profissional. Que os primeiros sejam sempre expurgados, amém!

Acredito que a pesquisa com maior profundidade destas instituições daria um bom trabalho sobre o perfil do profissional que trabalhava nas bibliotecas ontem e hoje.

Agora, deixa eu ir atender um consulente, pois meu lapso pode gerar uma reclamação que pode se eternizar em algum livro, blog ou tuitada!

O livro que deu origem à postagem é este:
AZEVEDO, Fernando. Minhas incursões por livrarias e bibliotecas. IN: ________. História de minha vida.Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora; Conselho Estadual de Cultura de São Paulo, 1971. p.65-70.

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