Estou pasmo e irritado.

Tive que parar o de ler o livro porque precisava passar um trecho do livro para fora da mente ou do papel. O desejo incontrolável de terminá-lo não foi maior que o desejo de disseminá-lo.

Isso posto gostaria de pedir: leia esse livro do Joca Renners Terron! Queria classificar o livro, mas é impossível. Mesmo resenhadores com prática estão quebrando a cabeça e não seria eu a fazê-lo.

Literatura gótica? Terror? Fantasia? Fábula? Policial?

Realmente, não sei.

Mas há muito mais, há momentos cheios de paixão, ódio, nojo e que traz sensações imediatas ao leitor.

Recomendo a leitura do trecho abaixo, onde um momento real (a ação da Polícia Militar na Cracolândia no início de 2012) é incorporado à trama onde fiz dois destaques.

No dia seguinte, o velho recebeu alta do pronto-socorro e nós voltamos de táxi para casa. Da janela do carro, ao passarmos pela região da Luz, enquanto ele investigava alguma cena microscópica que ocorria na nuca do motorista, eu via os vultos dos viciados em crack se arrastando pelas ruas com seus cobertores, através dos quais vazava a chama de isqueiros sendo acesos, apagados, acesos e apagados. Pareciam corações pulsantes na noite escura ou estrelas num céu preto de tempestade. Calçadas inteiras eram cobertas pelo emaranhado de membros, braços e pernas e pescoços de um só corpo sem início nem fim. A brigada policial observava aquele imenso tapete humano à distância, de cassetetes na mão, tangendo-o em blocos para o lado de lá da praça, mas qual lado? reconheci alguns colegas do 77º DP. O que podia haver do outro lado, uma saída ou um abismo no qual todos pudessem pular? A estação ferroviária estava desativada, não tinha nenhum vagão em vias de chegar para despachá-los. O campo de concentração estava ali mesmo, à vista de todos, no centro da cidade. De repente, uma bomba de gás lacrimogêneo explodiu e os noias debandaram em nossa direção, impedindo a passagem do táxi. Pude examiná-los muito de perto como se estivesse no zoológico e observasse as jaulas dos animais. Suas caras eram umas máscaras distorcidas de medo e fúria, roupas imundas, a pele enegrecida de óleo e fuligem. Um deles se aproximou, encostando os olhos e exibindo as gengivas na janela ao lado do velho, que o encarou com toda a sua apatia. De imediato aqueles dois pares de olhos reconheceram um ao outro através do vidro, e por um instante pensei que afinal não eram os viciados que estavam entre as grades do zoológico, e sim nós detrás de vidros e portas fechadas. O noia então se afastou do carro, agachou-se e cagou no meio-fio. 

Depois disso, só resta-me repetir: leia!

Leia mais sobre o livro aqui:

– http://homoliteratus.com/o-fascinante-a-tristeza-extraordinaria-do-leopardo-das-neves-de-joca-reiners-terron-vilto-reis/

– http://www.brainstorm9.com.br/39393/anticast/caverna-das-letras-02-a-tristeza-extraordinaria-do-leopardo-das-neves-de-joca-terron/

– https://soundcloud.com/anticastdesign/caverna-das-letras-02-a

– http://espanadores.blogspot.com.br/2013/07/convidado-da-semana-resenha-comparativa_3.html

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