De volta a São Paulo depois de quase quinze dias indo e voltando, finalmente fui fazer algo na cidade: sai do bairro do Jaguaré em direção a Praça da Sé no último Domingo à tarde.

Na ida, nada anormal. Como de costume, todos silenciosos nos quatro ônibus que peguei para chegar a tempo de ver uma peça de teatro. Levei incríveis 35 minutos em trajeto que levo normalmente uma hora ou mais em dias de semana!

Ao chegar na Praça da Sé, ela estava lotada: dezenas de moradores de rua solitários ou com suas famílias estavam “curtindo” a praça, também estavam lá os bêbados, drogados, vagabundos e até dois pregadores da Palavra.

foto-frio-madrugada-g-20110708Tudo parecia frio, em paz, até um cão começar a latir raivosamente.  Ele latia e avançou sobre um sujeito que logo o chutou e xingou. Naquele momento, o calor chegou e os ânimos se acirraram: o dono do cão avançou como um lobo desferindo socos e pontapés. Recebeu alguns também, e logo foi ajudado por outros três sujeitos que juntos agrediram violentamente o primeiro sujeito. E do nada surgiru um cadeirante que com sua cadeira elétrica empurrou o “folgado”, “filho da puta”, “corno”, “viado” que agrediu o cão até ele bater e quase ser atropelado pelo trólebus que subia em direção à vazia e fria Catedral da Sé. Acuado como uma raposa diante da matilha de cães, o sujeito passou pelo ônibus e só reapareceu lá longe, no início da Avenida São João enquanto que o burburinho da praça já diminuia, sob o olhar distantes dos policiais e guardas metropolitanos que assistiam tudo passiva e friamente.

Depois de presenciar a cena quente, desci até o Metrô, encontrei uma amiga e fomos ao Centro Cultural Banco do Brasil, onde tomamos sossegadamente um delicioso café (não gostei do tal bolo da vovó) e presenciamos a fria gerente destruindo a vida de sua funcionária na ótima peça “Contrações” (uma resenha aqui), apresentação que por coincidência se desenrolou sob o som de um ar-condicionado….

Ao término da peça, por volta das 17h30, evitamos retornar pela Praça, perdendo a oportunidade de vê-la à noite, mas o receio que não abandona os paulistanos me dominou. [Você está virando um bundão, William].

SAMSUNG Voltei de Metrô até a Vila Madalena onde subi em mais um silencioso ônibus paulistano que abrigava  uma jovem loira  cuja pele clara, quase transparente, linda, olhava para o nada, seus rosto sem expressão, parecia frio como um bloco de gelo. Mas de repente ela sacou o celular do bolso e começou a jogar nele deixando a aura gélida de lado…. até dar o “quit” e voltar ao seu estado de espírito catatônico, meio nórdico.

Tão diferente dos dois garotos que cantavam trechos de funk no fundo do veículo tão vivamente a ponto de criarem refrões irônicos para quem passava ou estava nos pontos de ônibus. Zoavam todos até chegarem no seu ponto final ao lado do Singapura abandonado pela Prefeitura próximo ao chique Parque Vila Lobos, o parque que recebe o frio Torneio de Tênis de SP e a SP Fashion Week, enquanto ali nas calçadas próximas ao conjunto habitacional e as horrorosos galpões vivem sob o céu escuro e frio das noites paulistas dezenas e mais dezenas de moradores de rua.

Essa sensação toda de frieza nórdica me fez lembrar de um trecho da canção do Amon Amarth chamada “Under the Northern Star” (ouça-a aqui):

Soon the lakes and seas will freeze
Snow will lay its veil
And we will long for the summer breeze
When we can set our sails

Que venham as brisas de verão para descongelar essa São Paulo!

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