Depois de lembrar das autobiografias do Jean Paul Sarte (As palavras), C. S. Lewis (Surpreendido pela alegria) e até mesmo as “Memórias da Emília” do Monteiro Lobato, a criatura fica toda elfórica (euforia élfica) para escrever sobre algum momento autobiográfico de sua infância.
Nesse momento, a criatura lembra-se da primeira encrenca das grandes na qual se enfiou. E a encrenca foi a seguinte:

Lá estava o pequeno rato oriental de cabelo sarará na sétima série do primeiro grau (ela não gosta do termo “Ensino Fundamental”) nos seus primeiros dias de aula quando reparou naquela garota. A morena, despeitada, desbundada, dos belos cabelos pretos longos, das saias e calças transadas sempre sorrindo para ele. Uma verdadeira Phoebe Cates de “Picardias estudantes” indígena (veja a foto). Espera aí, ela não sorria para ele, sorria através dele, pois o mundo dela era sorrir o tempo todo de tão simpática que era. Os sorrisos que passavam por ele eram voltados para as outras meninas transadas e para os garotos divertidos e atléticos da E. E. P. G. Aldeia de Barueri.
Assim, em estado de deslumbramento total e apaixonado ele planejou e planejou uma atitude para se aproximar dela, falar com ela, e quem sabe conseguir uma bitoca na testa (o horror era que ela era bem mais alta que ele!).
E assim foi. Em determinado dia, ele chegou antes na Escola, foi correndo até a sala de aula e…. deixou um bilhete romântico sob o repositório de material escolar da mesa em que a morena sentava! Isso feito, ele saiu correndo da sala tremendo como uma gelatina logo depois de ser retirada da geladeira.
Acontece que ele era observado. O Bodão o observava atentamente e foi ler o bilhete, que por sinal, jamais foi respondido, provavelmente porque a criatura não se identificou.
Entretanto, a criatura só soube do ocorrido dias depois quando o malvado do Bodão (soubesse que ele foi morto a tiros há muitos anos atrás) foi até o boteco da família e o chamou para trocar umas ideias na calçada. Saindo pela porta de madeira do boteco, os dois passaram pela mesa de bilhar e de pebolim e ao chegarem na rua o Bodão atirou: então, Neguinho, eu li o bilhete que você escreveu para a M e se você não me der uns doces vou contar para sua mãe que você escreveu umas besteiras pesadas para ela. E aí?
O tolo bem que tentou dizer bem avergonhadamente que não havia escrito nada errado, era apenas uma carta de amor, ou melhor, um poema de amor e nada mais. Mas como estava com medo de demonstrar até a paixão, ele acabou sendo ludibriado pelo bode.
E assim, por meses, o bode ganhou doces e até fichas para longas partidas de pebolim e bilhar.
Claro que a criatura tentou impor limites, mas de nada adiantou, tanto que ele chegou a conversar com o Cola, seu vizinho e melhor amigo e também com o Sapo (filho do homem que caiu do imenso pé de abacate e sobreviveu) e os três tentaram dissuadir o safado. Mas de nada adiantou, pois o anti-ser era da família mais temida do bairro, “Os Acaiba” (que claro, nos corredores mais escondidos e banheiros mais nojentos da escola eram xingados veementemente de Os Goiabas!), e assim o patife viveu, até o dia em que ficou irritado consigo mesmo e denunciou o ocorrido para sua mãe.
A mãe esperou o Bodão aparecer no boteco e o cercou até o mesmo pedir desculpas. E a criatura, além de envergonhada, tomou uns belos de uns tapas.
E assim, terminou com a bunda vermelha e dolorida que até se esqueceu de olhar os sorrisos da M….
Mas não era o fim dos problemas, logo, logo, ele se apaixonou pela garota branca dos cabelos castanho claro encaracolados moradora da rua das “mansões” da Aldeia de Barueri.
Mas aí já é outra história!

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