Muito tempo depois, uma postagem tinha que pingar aqui. E o clima é de Carnaval. Já que não pulo muito, mas para não ficar de fora da festa estava lendo um livro muito divertido (e trágico?!)  essa semana e lá me deparo com um trecho que fala sobre o comportamento de um político durante o Carnaval. Foi a deixa para falar do livro que há tempos quero comentar….

Na obra, a narradora é uma mulher, que exagera na ruindade de um sujeito que é político, e o faz por motivos pessoais: o tal político medíocre teve um relacionamento amoroso e a coisa parece não ter terminado bem. Mas mesmo assim, com todo o exagero literário não me foi possível não pensar que alguns de nossos digníssimos representantes legais não sejam parecidos, ainda mais se comparado ao velho comportamento destes nos camarotes Brasil afora.

Por fim, antes de colar alguns trechos, um hilário e outro mais sério, porém muito bem escrito, digo que o livro tem muitos outros momentos hilários, onde, a raiva e espírito de revanchismo é tão grande que soa divertido, como são divertidos os momentos reais pós-relacionamentos onde os momentos de loucura e falta de noção característicos de períodos de coração partido nos dominam e nos fazem falar e fazer muitas asneiras.

O primeiro trecho abaixo é daqueles que destroem um “ex-amor”:

Diz aí: carnaval passado você foi pra onde? Lucena? Jacumã? Salvador? Camarote, ar-condicionado, espetinho de camarão, uísque trinta e seis anos e caviar? Sempre gostei de carnaval e você sabe. Se a loucura tomou conta do meu terreiro nos últimos meses, antes ela só aparecia naqueles quatro dias, uma loucura boa, sem malícia, não cobrava nada em troca, era uma loucura amarelazinha. No Carnaval, você não me reconhecia, e aí revirava algo no meu estômago que fazia minhas tripas pulsarem a contragosto dos seus gostos, como se mariposas desavergonhadas fizessem seus festejos ali dentro. Os nossos pés nunca se encontravam na inclinação das ladeiras, nas fretas dos paralelepípedos históricos.

Você até ensaiava uns passos pra agradar, não a mim, mas a alguns eleitores que gostavam de saber que você também é do povo. Mas você, tenho que repetir, nunca foi do povo, nem das suas vacas, nem das suas cabras. Só das suas cobras. Você é da roda de medíocres com quem passa o carnaval; e passam na orgia sem orgia dos camarotes almofadados, cercados de seguranças por todos os lados pra cercar todos vocês de uma alegria que nem sabem existir.

 

Em outro trecho a narradora se apresenta com a verdadeira alma de quem realmente vive o Carnaval e o tem dentro de si:

Eu já falei que minha alma é de carnaval? Não? Então que conste em ata: minha alma de adamantium é de carnaval!

No carnaval fui nos meus quintais a única mestre- sala. Nunca precisei correr pros braços de nenhum homem nos dias de folia para me tornar realidade. Corria pro braço que não enlaça, o braço da orgia do batuque solto dos agogôs, dos trompetes, dos violões. Eu era bailarina que no primeiro chamado voava aos céus, tanto subindo ou descendo a ladeira. Só o que me enlaçava era o voo sem ímpares da serpentina.

Nesse trecho o autor faz uma proeza, une uma citação de HQ (para quem não sabe, adamantium é o metal superpoderoso que substitui os ossos do Wolverine dos X-Men), descreve uma amante da dança popular e faz isso em um tom poético inspirado. É coisa de gênio.

Essa obra-prima que cito se chama “Palavras que devoram lágrimas ou a felicidade cangaceira” do Roberto Menezes e foi publicada na Coleção Latitudes em formato e-book. Custa só R$5,90 na loja da Amazon!!!!

Agora, vou continuar minha caminhada no livro pensando no seguinte: quando alguma biblioteca pública brasileira terá essa obra virtual? Não vai ter tão cedo. Quem quiser que compre e se vire…. estamos muito atrasados por aqui.

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