Sai da cidade de Jandira e fui até o velho bairro do Brás em São Paulo.

Estava na cidade abandonada e fui para a zona cerealista toda zoneada.

Já no Brás, andando para passar o tempo enquanto esperava um marceneiro para ir até a Rua do Gasômetro, vi os inúmeros veículos, casas, sobrados e fábricas abandonados lado-a-lado do vai e vem vivo de mercadorias, mercadores e trabalhadores semi-escravos vítimas da terceirização em voga.
Logo veio a sede, e na busca por água, fui olhando todos os botecos nada-chiques da região e seu estado precário e modos de operação peculiares. Em um deles, onde haviam três pessoas bebendo uma cerveja das mais baratas, também se vende pães, e curioso que sou fui perguntar quanto custava o quilo. A resposta foi que lá cada pão francês sai por R$0,50! Há vários anos, foi proibido a venda de pães por unidade, não é mesmo?!
Acabei chegando em um supermercado Dia. Nele a entrada era feita por uma catraca!
No Brás, parece-me que há outra maneira de se reger o mundo….

A população, como todos devem saber, é composta por nordestinos e latinos. E eles vão e vem por todo lado, entrando e saindo das lojas, carregando coisas e crianças, e indo longe até chegarem nas ruas, ou ruelas, estreitas onde pequenos casebres de um andar construídos lado-a-lado parecem um túnel sem fim….

Horas depois, lá estou próximo da estação Presidente Altino da CPTM. O local merece mais atenção que não darei agora, mas é parecido com o Brás e com Jandira….

Cheguei em Jandira por volta das 19 horas e não estou com vontade de descer as enormes escadarias sujas da Estação e pegar direto um taxi-lotação ou um ônibus e vou andando a esmo pelas ruas sujas e já escuras da cidade.
Logo de cara, descubro numa rua paralela a linha do trem um Hamburgueria, Restaurante, Pizzaria chamada “The Vieira” e fico com vontade de conhecer alguma guloseima, mas não estou com fome e continuo a caminhada. Passo por um supermercado popular e vou ver o preço de sabonete líquido e shampo masculino. Saio horrorizado, pois os preços estão muito acima dos que paguei cerca de um mês atrás. Decido ir andando até um supermercado maior que fica próximo ao centro, o “Barbosa”. Ando uns 10 minutos pelas ruas mal iluminadas e esburacadas e lá estou. Os preços estão idênticos. Dou uma volta no supermercado e acho tudo muito caro, e penso: meu, quem ganha mal deve sofrer com essa maldita inflação e quem está ficando desempregado, como se sente ao vir aqui e ver que seu trocados finais não compram quase nada?
Fico mais melancólico que o normal e vou-me embora.
Continuo a caminhada e paro no ponto de ônibus em frente à bonita Biblioteca Municipal (nem vou falar nada… a bicha só abre de segunda a sexta, das 8h às 18h, um absurdo!).
Parado no ponto, espero, espero e espero. De repente, desisto de esperar e volto a caminhar. Naquele trecho começa a subida do morro. Mas as ruas e calçadas são tão esburacadas que a sensação é de estar percorrendo uma trilha no meio do mato, mas só que ao invés de pisar na terra, se pisa em concreto, piche, papel, plástico e cocô de cachorro.
A subida é longa e desisto de ir até o fim e paro em outro ponto de ônibus. Bem, na verdade é uma parada de ônibus ao lado de um orelhão (quebrado pelos vândalos por sinal). O piso e a tampa de uma bueiro, óbvio, estão esburacados e danificados.

Finalmente, passa um “Fátima” e vou-me embora.

Chegando em casa, cansado, vejo alguns e-mails meus e da ABRAINFO, linkedin, twitter, facebook e me prosto no sofá. Penso em assistir um filme, mas não faço nada. Volto para o facebook e vejo uma postagem sobre o rapper Gog falando da Rede Globo. Clico, ouço, clico de novo e chego ao “CD GOG as melhores”.
Ao ouvir “Rua sem nome, barraco sem número” e “Sonho real” de olhos fechados decido escrever aqui, pois “Sonho real” fala exatamente sobre a vida do povo e das periferias, periferias como Jandira, Brás (e as favelas do Jaguaré e Presidente Altino).

Recomendo ouvir no youtube as duas canções. A base da segunda canção citada é daquelas tristes de doer.

 

Brás - Rua Monsenhor Andrade

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