Hoje uma amiga especialista em mercado editorial compartilhou em seu Facebook a notícia da repercussão da decisão da ABL (Academia Brasileira de Letras) de não premiar nenhum livro de poesia publicado em 2014.

Achei um absurdo, mesmo eu não tendo lido quase nada de poesia no ano passado (na verdade não li quase nada de literatura devido a uma pós-graduação…). A primeira reação foi escrever algo do tipo: oras, é claro que não vai conceder o prêmio, nenhum autor camarada deve ter escrito algo minimamente bom na visão antiquada de literatura que preenche aquela casa.

Mas voltei para a leitura e vi as indicações do poeta Eucanaã Ferraz (já li alguns de seus livros e gostei bastante) e fiquei curioso em lê-los.

E como sempre acontece, não tenho uma grana sobrando para comprar as cinco indicações, e lá fui à procura deles nos catálogos das Bibliotecas Parques de São Paulo e Rio de Janeiro e no Sistema Municipal de Bibliotecas de São Paulo.

Abrindo os catálogos eu pensei:

– Poxa. Vou pesquisar nos catálogos das bibliotecas do Estado mais rico da federação e no Estado que mais recebeu investimentos nos últimos anos e os livros são de 2014. Vou achar em várias bibliotecas. afinal, mesmo com certa burocracia (nas bibliotecas municipais de SP) já deve ter dado tempo de efetuar a compra.

O resultado foi o seguinte:

– “Um teste de resistores” (7letras), de Marilia Garcia:

não está disponível em nenhuma delas.

“Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo” (Companhia das letras), de Paulo Scott;

disponível apenas na Biblioteca Mário de Andrade (dois exemplares, um para preservação e outro para empréstimo)

“Desalinho” (Cosac Naify), de Laura Liuzzi;

não está disponível em nenhuma delas.

“O corpo no escuro” (Companhia das Letras), de Paulo Nunes.

disponível apenas na Biblioteca Mário de Andrade (dois exemplares, um para preservação e outro para empréstimo) e no Centro Cultural São Paulo (um exemplar para empréstimo)

Apenas dois títulos disponíveis para a população e apenas em duas bibliotecas. Muito pouco!

Gostaria de ter pesquisado os livros de poesia publicados em 2014 e adquiridos pelas bibliotecas para verificar se outros títulos de outros autores foram adquiridos, mas como esperava, não há nenhum filtro que cruze o assunto “poesia” com o “ano de publicação”, pois nenhum dos catálogos possui o último campo como opção de busca.

Mas vou reclamar porque?!

Ninguém gosta de poesia não é mesmo?!

Ao mesmo tempo, os saraus literários, onde a poesia abunda estão cheios de gente lendo e ouvindo poesia. Será que ninguém lê poesia mesmo? Por sinal, foi a partir de um destes saraus, que surgiu um livro publicado ano passado que se eu fosse consultado pelo “O Globo” eu indicaria: Terra Fértil, da Jennyfer Nascimento. Esse livro por sinal, em breve, será distribuído para várias bibliotecas da cidade de São Paulo. Quando chegar, não deixe de ler (se estiver em SP).

Mas me pergunto se não é o caso das bibliotecas montarem estratégias de mediação de leitura que promovam esse gênero e outros menos procurados, mas que podem ampliar a capacidade de apreciação dos leitores, ampliando seu repertório de leitura?

Além da seleção por sua equipe de Desenvolvimento de Coleções e sugestões dos usuários, as bibliotecas também não deveriam consultar críticos literários para também darem seus pitacos?! E no primeiro caso, seria muito bom termos bibliotecários do Brasil inteiro numa rede de leitura e indicações buscando a troca entre leitores de todo o país diminuindo o bairrismo e integrando a literatura nacional?

Enfim, paro aqui de viajar e quando der vou passar na Biblioteca Mário de Andrade para ler os dois livros encontrados e em seguida vou a alguma livraria dar uma olhada nos outros.

Ah, fica uma poesia do Eucanaã:

Graça

Não saberia dizer a hora

em que me desfizera de tudo o que não era teu,

quando cada coisa se deixou cobrir

por tua presença sem margens

e deixou de haver um lado

que fosse fora de ti.

in Rua do Mundo.

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